Peter Lord e a arte de brincar com Piratas
maio 15th, 2012Os piratas eram temidos cada vez que se aproximavam de uma região, pois saqueavam todos os tesouros disponíveis. De certa forma, algo semelhante acontece com a Aardman: cada vez que anuncia uma nova produção, os outros estúdios de animação do mundo todo tremem, pois sabem que o estúdio inglês costuma levar quase todas as premiações. É compreensível portanto que o cineasta co-fundador da Aardman, Peter Lord, tenha escolhido “Piratas Pirados!” para resgatar a importância do estúdio no cenário da animação mundial.
“Piratas Pirados!” é inspirado num livro infantil e foi roteirizado pelo próprio autor do livro, Gideon Defoe, e conta com astros famosos em sua dublagem original, em inglês, como Hugh Grant (“Letra e Música”), Brendan Gleeson (“Protegendo o Inimigo”), David Tennant (série “Doctor Who”) e Salma Hayek (“Gato de Botas”).
A produção foi extremamente bem recebida pela crítica internacional ao equilibrar o charme do passado com as necessidades de se adaptar ao futuro. “Piratas Pirados!” foi filmado em 3D, mas Lord, que dirigiu o divertido “A Fuga das Galinhas” (2000), não abriu mão de utilizar o stop motion – aquela antiga técnica na qual os bonecos são animados quadro a quadro. “Stop motion é o que gostamos de fazer e é o que fazemos melhor. Foi como voltar às nossas raízes”, ele comentou na entrevista coletiva de apresentação de seu novo filme.
Isso porque os dois últimos trabalhos do estúdio, “Por Água Abaixo” (2006) e “Operação Presente” (2011), foram realizados em computação gráfica (CGI). Ao optar pela técnica que o consagrou para produzir “Piratas Pirados!”, e receber elogios pelo resultado, o estúdio Aardman busca reencontrar sua identidade.
Peter Lord e David Sproxton ainda tinham espinhas quando brincavam com massas de modelar para fazer pequenas animações na mesa da cozinha de casa. A brincadeira foi ficando cada vez mais séria, a ponto de serem convidados pelo canal britânico BBC para produzirem curtas-metragens para um programa infantil. Entre 1972 e 1973, a dupla fundou oficialmente a Aardman Animations e a empresa começou a produzir em escala industrial, atendendo tanto às TVs, quanto anúncios publicitários e vídeos musicais.
Com o passar dos anos e a intensidade de trabalho cada vez maior, o estúdio começou a contratar mais e mais animadores, entre eles Nick Park. Com a entrada dos anos 1980, a Aardman começou a ganhar destaques em festivais e, em 1989, surgiu uma dupla de personagens que levaria o nome do estúdio para o mundo todo: o inventor Wallace e seu inteligente cachorro yorkshire Gromit. Em 1991, veio a virada: a Aardman concorreu ao Oscar de Melhor Curta de Animação com duas produções, “Creature Comforts” (1989) e “Wallace & Gromit: Um Grande Passeio” (1989) – ambas dirigidas por Park. “Creature Comforts” levou o prêmio.
Enquanto a Pixar ainda fazia rascunhos de Buzz Lightyear, a Aardman conquistava os críticos e o público de festivais com suas animações, e as premiações continuaram. Tanto “Wallace & Gromit: As Calças Erradas” (1993) quanto “Wallace & Gromit: O Fio da Navalha” (1995) levaram o Oscar de Melhor Curta de Animação, além de, é claro, chamarem a atenção da indústria americana. A recém-criada DreamWorks, de Steven Spielberg, iniciou uma parceria milionária com o estúdio britânico ainda no fim da década de 1990, e passaria a produzir e distribuir seus próximos longas.
O primeiro fruto da união foi “A Fuga das Galinhas” (2000), dirigido por Lord e Park, com Mel Gibson (“Um Novo Despertar”) dublando o protagonista. Ainda não existia o Oscar de Animação, o que é a única razão para a produção não ter uma estatueta da Academia em sua lista de prêmios, mas foi muito bem nas bilheterias e nas críticas. A Aardman manteve o crescimento e, em 2005, realizou mais um sucesso com “Wallace & Gromit – A Batalha dos Vegetais”. Além de quase quadruplicar seu orçamento de US$ 30 milhões, o longa levou o Oscar de Melhor Animação.
Logo em seguida, porém, a Aardman assistiu ao enorme fracasso de “Por Água Abaixo”. Com um orçamento digno de um blockbuster de primeira grandeza (estrondosos US$ 150 milhões) e um elenco estelar (Hugh Jackman, Kate Winslet, Ian McKellen, Jean Reno, Bill Nighy e Andy Serkis), a produção recolheu apenas US$ 64 milhões nos EUA e não foi bem recebida pelos críticos. O fiasco deixou os engravatados americanos furiosos e a DreamWorks rasgou o contrato com o estúdio inglês – mais tarde, a Aardman respondeu e declarou publicamente que o fracasso foi causado pela constante interferência dos produtores hollywoodianos.
Aparentemente, é verdade, já que a animação “Operação Presente” foi bastante empolgante. Após o buraco deixado pela DreamWorks, a Sony se apresentou e apostou no estúdio, que tinha nas mangas um projeto original de uma ideia batida: como o Papai Noel consegue entregar presentes no mundo inteiro no mesmo dia? Apesar de ser em CGI, a animação (dirigida pela estreante Sarah Smith) colocou novamente a Aardman sob os holofotes.
A nova investida dos ingleses pode parecer óbvia, afinal a franquia “Piratas do Caribe”, com seus quatro filmes, bateu a casa do bilhão de dólares de lucro. Mas Lord já havia proposto a ideia de uma animação de piratas há cerca de 12 anos, antes de Jack Sparrow virar a primeira garrafa de run. Na época, filmes de piratas não faziam sucesso – o último exemplar foi o metralhado “A Ilha da Garganta Cortada” (1995). “Hoje é considerado um filão de sucesso, onde quer que eu vá, as pessoas dizem: ‘Ah, sim, as crianças adoram piratas, não é?’”, brincou o cineasta.
Pouco depois de “Piratas do Caribe” virar um sucesso, chegou às mãos de Lord um exemplar do livro “The Pirates!”, de Gideon Defoe. “Lembro que li apenas algumas páginas e ri tanto”, comentou. “A maneira como o autor olhava para o mundo dos piratas era tão fresco. Era uma história implacavelmente otimista e aquilo era perfeito para nós”, disse o diretor. De fato, adaptar histórias literárias não é frequente na Aardman. Mas Lord havia encontrado seu próximo projeto e reuniu-se com os produtores da Sony. “Eu prometi que não teria nada a ver com aquela outra franquia de piratas live-action lá fora”, brincou.
A primeira escolha para dar novos ares ao ambiente dos piratas seria retornar para o stop motion, fugindo de vez de qualquer memória de “Por Água Abaixo” e retornando às origens da Aardman. A técnica, no entanto, é relativamente cara, afinal é necessário criar miniaturas de todos os personagens e ambientes e o orçamento ficou próximo de US$ 60 milhões. Não é nada perto da megalomania de “Por Água Abaixo”, mas é o dobro da última produção em stop motion do estúdio, “Wallace & Gromit – A Batalha dos Vegetais”.
A escala foi aumentada em todos os sentidos: “Piratas Pirados!” usaram 40 sets, enquanto “Wallace & Gromit” tinham 28. Lord orientou uma equipe de aproximadamente 500 artistas e cerca de 250 bonecos para 60 personagens (três vezes mais do que “Wallace & Gromit”) foram utilizados para as filmagens.
Sim, bonecos, porque os tempos mudaram e agora a massa de modelar já é coisa do passado. “Desde o primeiro dia nós sabíamos que os (bonecos de) piratas usariam cintos de ouro, fivelas, espadas, bandanas, lenços etc., e não podemos criar tudo isso em plasticina como fazíamos antes”, lamentou Lord. “A plasticina é um material maravilhoso e glorioso e que nós amamos, mas geralmente, em sua forma pura, traz todo o tipo de problemas de design”, explicou o diretor.
O excesso de detalhes forçou a escolha por bonecos de silicone e látex, mas que ofereciam a possibilidade de intercâmbio de peças. Os protagonistas, por exemplo, dispunham de cerca de 200 bocas diferentes, algumas próprias para algumas sílabas e expressões, que podiam ser conectadas rapidamente por meio de ímã. “Em produções anteriores, o animador recebia de 10 a 15 bocas que seriam esculpidas em plasticina e isso levava muito tempo”, explicou. Mas o animador Rhodri Lovett lembra que, apesar de toda a preparação dos bonecos, filmar stop motion continua sendo um processo lento: “Se você faz cinco segundos (de cena), sente que teve um dia muito bom”.
Outra grande mudança foi aceitar a era digital sem preconceitos. Apesar de ainda utilizar bonecos e a filmagem quadro a quadro, “Piratas Pirados!” fez uso do CGI para compor parte do cenário – a água do mar, por exemplo – e até para animar digitalmente alguns personagens de fundo. A grande adaptação, no entanto, foi filmar em 3D.
“Inicialmente, fiquei alarmado com isso porque pensei que iria ser difícil”, confessou Lord. Mas o recurso já havia sido bem utilizado num stop motion anteriormente, em “Coraline” (2009), e o diretor acabou se dando conta de que os truques da filmagem em 3D, na verdade, nem eram tão novos para ele e para a Aardman.
“É engraçado porque nossos filmes já são, literalmente, tridimensionais. Sempre pensamos em termos de espaço e profundidade, já que nossas animações não são desenhos, então filmar em 3D foi apenas um modo de captar melhor nosso mundo”, raciocinou.
O resultado da produção agradou tanto ao estúdio britânico que Lord já se cogita uma sequência. “‘Piratas!’ é mais ou menos como ‘Wallace & Gromit’, sinto que ele é como parte de uma série de aventuras”, animou-se o cineasta.
Fonte: http://pipocamoderna.com.br/peter-lord-e-a-arte-de-brincar-com-piratas/176021















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